Prefácio

Uma trilha nada mais é que uma estrada para pedestres (ou em alguns casos ciclistas). As rodovias existentes hoje são as sucessoras de trilhas antigas. Na Europa muitas delas foram construídas sobre vias romanas, aproveitando seu traçado. Na América do Sul fenômeno semelhante ocorreu com a malha viária inca, cujo leito deu lugar a diversas estradas atuais. Também no Brasil, muitas rodovias foram edificadas sobre antigas picadas indígenas (peabirus), caminhos bandeirantes e rotas coloniais ou do tempo de Império. Nos estados de Minas Gerais, Paraná, São Paulo, Goiás e Rio de Janeiro temos vários desses exemplos, como são os casos de muitos trechos da Estrada Real, da Estrada da Graciosa, da Estrada Caeira e do Caminho do Ouro.

Todas as estradas, desde sua concepção inicial, sempre incorporaram a necessidade da sinalização, seja ela direcional ou interpretativa. Os romanos tinham marcas a cada milha de suas vias. O marco zero de todas elas era o centro de Roma, daí o ditado: “todos os caminhos levam a Roma”. No Brasil, os caminhos bandeirantes eram marcados com cortes de facão em árvores ou, em regiões onde não havia florestas, com totens de pedras amontoadas. Seja como for, desde tempos imemoriais, sempre que houvesse possibilidade de dúvida quanto a direção a ser seguida, adotou-se algum tipo de sinalização.

As estradas e ruas de hoje em dia têm sinalização direcional em formato de placas indicando os destinos. Por exemplo: São Paulo, Belo Horizonte, Passa Quatro, Laranjeiras. Também têm sinalização calmante, que objetiva tranquilizar o viajante dando alguma informação sobre a duração do caminho (por exemplo: BR 101, quilômetro 832), ou placas de sinalização interpretativa (ponte sobre o córrego das Taxas). Por fim, as estradas do século XXI ainda têm sinalização educativa (dirigir sem cinto de segurança mata ou mantenha a distância), indutiva (curva acentuada para a direita), ou regulatória (sob neblina use farol baixo).

Considerando-se que uma trilha é uma estrada, exatamente as mesmas regras têm sido aplicadas às vias pedestres em todo o mundo, com grande grau de uniformidade e consenso em todos os países. Assim a sinalização de trilhas nos Estados Unidos, Austrália, Argentina, África do Sul, Japão, Coreia, Caribe, Europa e na vasta maioria dos outros países tende a ser muito parecida e a utilizar os mesmos modelos e regras. Os métodos e normas de sinalização apresentados nesse manual não são novos, nem desconhecidos no resto do mundo. Com efeito, o Brasil é um dos poucos países em todo o planeta em que as instituições responsáveis pela administração de áreas protegidas ainda não têm sinalizado sistematicamente suas trilhas de forma padronizada e dentro de regras pré-estabelecidas e mundialmente testadas.

Apenas para efeito de comparação. Ao tempo da redação deste manual, os 75 milhões de hectares do Sistema Federal de Unidades de Conservação Brasileiro contavam com menos de 300 km de trilhas sinalizadas. Já o Sistema de Florestas Nacionais dos Estados Unidos, com tamanho similar (cerca de 73 milhões de hectares), contava com 225 mil km de trilhas sinalizadas. No outro extremo de tamanho, a Ilha de Dominica, um diminuto país caribenho, com 70 mil habitantes e 75 mil hectares de área total, tinha cerca de 250 km de trilhas sinalizadas, dos quais 183 contínuos em uma Trilha de Longo Percurso, a Waitakubuli National Trail. Outro exemplo que merece ser citado pela sua reduzida área geográfica é o da Eslovênia. O país europeu, de apenas 20.256 km² (menor que o menor estado brasileiro – Sergipe tem 21.910 km²), tem uma malha de sete mil quilômetros de trilhas sinalizadas. Vale também mencionar uma unidade de conservação na África do Sul, país com nível de desenvolvimento similar ao Brasil. O Parque Nacional da Montanha da Mesa, de 25 mil hectares, tem 600 km de trilhas sinalizadas. Para terminar a ilustração, seguem alguns números dos totais de trilhas sinalizadas em outros países europeus: Alemanha: 260 mil km, França: 180 mil km, Suíça: 50 mil km, Espanha: 14 mil km, Suécia: 6 mil km, Holanda: 5 mil km, Bélgica: 4.300 km e Portugal: 1.500 km.

Na Europa as trilhas são sinalizadas desde antes do Império Romano, quando ainda eram destinadas ao trânsito, entre localidades, de pessoas e cargas levadas em lombo de animais. A partir de 1876, com a criação do primeiro parque nacional do mundo, Yellowstone, os Estados Unidos e o resto dos países, incluindo a própria Europa, adaptaram o conhecimento e os métodos adquiridos ao longo de mais de dois mil anos nessas estradas para pedestres e desenvolveram técnicas de sinalização de trilhas voltadas para atividades de excursionismo e recreação dentro de unidades de conservação.

No processo de mais de um século desde então, foi acumulado muito conhecimento do que fazer e do que não fazer. Este know-how, além de ser ensinado em cursos e oficinas de treinamento, encontra-se registrado em vasta literatura publicada sobre o tema, disponível em livrarias especializadas e na internet (vide a nossa bibliografia aqui).

O presente Manual de Sinalização não tenta reinventar a roda. Buscamos mostrar como a sinalização de trilhas tem sido feita mundo afora. Utilizamos exemplos colhidos em cerca de duas centenas de unidades de conservação em quase cinquenta países. Esse grande volume de conhecimento acumulado e testado no mundo inteiro foi então usado para subsidiar o estabelecimento de regras e métodos de sinalização que podem e devem ser aplicados na vasta malha de trilhas das Unidades de Conservação brasileiras.

O padrão aqui proposto tem sido usado com sucesso no Parque Nacional da Tijuca há mais de 15 anos onde, depois dos trabalhos de sinalização em 1999-2000, a média de pessoas perdidas em suas trilhas caiu de mais de cem para menos de cinco por ano. Recentemente, o mesmo modelo foi adotado por outras UCs como os Parques Nacionais da Chapada dos Veadeiros, Serra dos Órgãos, Pau Brasil e Saint Hilaire-Lange e os Parques Estaduais fluminenses dos Três Picos e da Pedra Branca entre outros.

Agora resolvemos disponibilizar esse conhecimento acumulado para todos os colegas que entendem que o ecoturismo é uma ferramenta de conservação e que desejam começar a fazer o manejo de suas trilhas.

Boa leitura e, sobretudo, bom trabalho!

Pedro da Cunha e Menezes, agosto de 2014